sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Refletindo sobre Deus


O evangelista Marcos relata uma ocasião em que um dos escribas se aproximou 
de Jesus e perguntou sobre qual o maior dos mandamentos. O Mestre então responde:

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, 
de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.” (Marcos 12:30)

Jesus, como veio dar cumprimento à lei (Mateus 05:17), não trouxe, no ama
r a Deus, mandamento novo, pois esse mandamento já estava escrito no Velho 
Testamento, no livro Deuteronômio. Lá, no entanto, o mandamento está simplificado,
 pois diz:
        
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de
 toda a tua força.” (Deuteronômio 06:05)

A diferença entre as duas citações é a passagem “de todo o teu entendimento”.
 Busquemos, então, atingir um melhor entendimento sobre Deus, nosso Pai.



O que é refletir sobre Deus?

Não é possível a nós, criaturas, definir precisamente Deus, o Criador. O que podemos,
 como Jesus nos recomendou, é, pouco a pouco, melhorar o nosso entendimento 
sobre Deus, a cada dia, a cada vivência, a cada estudo, se nós estivemos atentos, 
despertos e dispostos a isso. Essa compreensão sobre Deus está condicionada 
ao nosso aperfeiçoamento, ao nosso progresso, tanto moral quanto intelectual,
 pois até mesmo quando a Ciência consegue explicar uma lei que rege o Universo,
 vemos aí a inteligência de Deus que já previu todo o fenômeno, e nós estamos,
 através do trabalho, do nosso esforço, compreendendo um pouco mais a
 Inteligência que rege tudo. E isso falando apenas em termos materiais... 
e quanto às ciências da alma, do amor? Quanto a aprender... Por isso, preferimos
 utilizar o verbo refletir.

Quando procuramos no dicionário a definição do verbo refletir, encontramos [1]:
  • Como verbo transitivo indireto (verbo que precisa de complemento com 
  • preposição, como a palavra “sobre”), refletir significa pensar maduramente,
  •  meditar, reflexionar. Esse o sentido que pensamos inicialmente, refletir sobre
  •  Deus. No entanto, esse verbo ainda traz um outro significado:

  • Como verbo transitivo direto (verbo cujo complemento é sem preposição),
  •  percebemos que o termo traduz nossa evoluída atitude futura, o que Jesus, 
  • como nosso modelo, já conseguiu e veio nos ensinar, que é “refletir Deus”,
  •  ou seja, deixar ver; revelar, mostrar, traduzir, através de nós, todo amor de Deus.

Outra palavra que vamos utilizar nessa nossa reflexão sobre Deus é
 “conceito”, que, segundo o dicionário, quer dizer: “ação de formular uma ideia 
por meio de palavras; definição, caracterização. Pensamento, ideia, opinião”.
Assim, os nossos objetivos são, primeiramente, apresentar o conceito de Deus
 segundo a Doutrina Espírita, convidando à comparação desse conceito com 
aqueles que já construímos; e, em sequência, refletir sobre o efeito desses 
conceitos em nossa vida.



Conceitos de Deus ao longo da história da Humanidade

O homem primitivo, ainda muito ligado à vida material, pois tinha de 
sobreviver num mundo hostil, tinha consciência íntima de Deus e 
transportava esse sentimento para os fenômenos e coisas da natureza, 
adorando o Sol, a Lua, o Céu, o Trovão, os Bosques...

Consideremos a questão 06 de “O Livro dos Espíritos”. Kardec dirigiu
 aos Espíritos Superiores a seguinte questão:
“O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto 
da educação, resultado de ideias adquiridas?” [2]

Ou seja, vemos que nós já temos um sentimento íntimo da existência de Deus.
 Muitos podem até não concordar com a existência de Deus como lhe é apresentado,
 como um velhinho de barbas compridas, por exemplo. Mas o sentimento de que
 existe algo superior, nós temos. Kardec questiona – será que nós temos esse 
sentimento porque fomos ensinados a isso? Os Espíritos Superiores responderam:

“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?” [2]

É exatamente o que acontece com o homem primitivo. Ninguém ensinou 
o homem das cavernas a adorar os fenômenos da Natureza. Esse sentimento 
já estava presente nele, pois ele tinha a consciência íntima de Deus; porém,
 o seu desenvolvimento só comportava esse tipo de adoração às coisas materiais.
 Era o que ele via e vivenciava; não havia ainda condições para maiores
 abstrações do pensamento.

Kardec retoma essa pergunta, de um modo diferente, quando estuda as leis naturais,
 na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, a seção que trata das leis morais,
 no Capítulo II, sobre a Lei de adoração. Nesse capítulo, na questão 650, encontramos:

Origina-se de um sentimento inato a adoração, ou é fruto de ensino?

Sentimento inato, como o da existência de Deus. A consciência de sua fraqueza leva
 o homem a curvar-se diante daquele que o pode proteger.” [3]

Avançando na História, obsevamos que os povos da Antiguidade, como 
os sumérios, babilônios, assírios e caldeus, eram politeístas, ou seja,
 acreditavam na existência de vários deuses.

Os gregos também eram politeístas, e pela Mitologia, cada coisa tinha o seu
 Deus respectivo e cada Deus a sua tarefa e função definida, e com 
isso havia uma explicação sobre certos fenômenos da vida da Terra e do 
Universo. Os romanos adotaram deuses gregos como seus, apenas com a
 mudança dos nomes. Desta forma, tínhamos Zeus na Grécia, que ficou sendo 
Júpiter em Roma, e assim por diante.

Já os persas, através de Zoroastro, acreditavam na existência de dois poderes,
 o Bem e o Mal. Percebe-se um passo em direção à ideia monoteísta, ou seja, 
de um deus único, pois antes de Zoroastro, os persas também eram politeístas, 
como os demais povos.

Os egípcios tinham os seus deuses para o povo em geral, porém os sacerdotes 
cultuavam, em segredo, uma Inteligência Una, regente do Cosmo.

Os hebreus adoravam e cultuavam um Deus único, Jeová, Senhor dos Exércitos.
 No livro Êxodo, do Velho Testamento, no capítulo XX, quando começa o 
Decálogo, ou seja, os 10 mandamentos, vemos o primeiro mandamento que traduz 
a ideia de Deus daquele povo:

“Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão. Não
 tereis diante de mim, outros deuses estrangeiros – Não fareis imagem esculpida,
 nem figura alguma do que está em cima no céu, nem em baixo, na Terra, nem
 do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes
 prestareis culto soberano (...)”. (Êxodo 20:02-05)

Vemos, nesse trecho, uma abordagem diferente de tudo o que tínhamos antes
 como ideia de Deus. Não mais uma forma, qualquer que fosse, para o 
representá-lo; não mais vários deuses, mas um só Deus.

Continuando este breve relato histórico do conceito de Deus ao longo do 
tempo, temos o ponto máximo com Jesus, que mantém a ideia de Deus único,
 do povo hebreu, e estende esse entendimento para o Deus Pai.

Há várias passagens evangélicas em que Jesus se refere a Deus como Pai, 
mas destacamos a registrada por Mateus, em seu capítulo 6, versículos 
09 a 13, bem como por Lucas, no capítulo 11, versículos 02 a 04, que
 é a prece do Pai Nosso, quando Jesus nos ensina a orar.

Outra passagem que destacamos é a que Jesus conversa com a mulher
 samaritana e diz, conforme o relato de João:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o
 Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
 Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e verdade.
 (João 04:23-24)

É outro salto evolutivo: entender que não precisamos de nada material para
 adorar a Deus.

Finalizamos nossa viagem histórica abordando o conceito de Deus segundo
 a Doutrina Espírita [4], o qual não difere do conceito trazido por Jesus. Façamos
 um breve comparativo entre o conceito de Deus segundo Moisés e segundo Jesus:

Segundo Moisés
Segundo Jesus
Deus único, Soberano Senhor e Orientador de todas as coisas
Deus único, Pai
Terrível, ciumento
Soberanamente justo e bom
Vingativo, cruel, implacável
Imparcial
Rega a terra com sangue humano
Deus que vê o pensamento e não se honra com a forma
Deus dos exércitos
Deus de misericórdia
Deus único de um único povo privilegiado
Pai comum de todo o gênero humano
Deus que quer ser temido
Deus que quer ser amado

Resumindo esse apanhado histórico, o conceito de Deus começou relacionado 
a fenômenos da Natureza — muitos deuses; passou para a representação 
humana desses muitos deuses (como vemos com os gregos e romanos);
 com os hebreus, chegou ao entendimento de que Deus é único e não tem
 forma definida, mas ainda com sentimentos humanos (ficando com raiva
 e vingando-se); e Jesus nos traz o conceito de Deus único, imaterial e 
com sentimentos sublimes.



Qual o nosso entendimento sobre Deus?

Kardec, no estudo que faz na Gênese, ainda no capítulo I, Caráter da Revelação 
Espírita, conclui, dizendo:

“Toda a doutrina do Cristo se funda no caráter que ele atribui à Divindade.
 Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, ele 
fez do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição indeclinável
 da salvação, dizendo: Amai a Deus sobre todas as coisas e o vosso próximo 
como a vós mesmos; nisto estão toda a lei e os profetas; não existe outra lei.” [4]

Se Jesus nos disse que devemos amar a Deus de todo o nosso entendimento, 
qual é o nosso entendimento de Deus, hoje? Meditemos a respeito; 
não é necessário comentar com ninguém, é algo só nosso, para que, de
 forma escrita ou no pensamento, possamos refletir qual é o nosso, pessoal
 e intransferível, entendimento sobre Deus.




O Consolador relembra e complementa os ensinos de Jesus sobre Deus

João registrou em seu Evangelho, que Jesus afirmou não ter podido trazer
um conjunto completo de esclarecimentos:
“Tenho ainda muito que vos dizer, mas não o podeis suportar agora.”(João 16:12)
“Mais tarde, porém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito de Verdade, que
 restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas.”(João 14:16, 17 e 26)

Nós também estamos evoluindo ao longo do tempo. Coisas que na
 época de Jesus eram desconhecidas ou inexplicáveis, hoje a Ciência
 veio nos explicar e compreendemos e, principalmente, usufruímos.
 Da mesma forma, o ensino de Jesus, como Ele mesmo previu, seria 
deturpado, se afastaria da pureza inicial, e deveria ser restabelecido. 
E, entre esses ensinos, o próprio entendimento de Deus.

E qual é o Consolador Prometido? O Espiritismo.

“O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como este partiu 
das de Moisés, é consequência direta da sua doutrina. (...) Pelo Espiritismo,
 o homem sabe donde vem, para onde vai, por que está na Terra, 
por que sofre temporariamente e vê por toda parte a justiça de Deus.(...)” [5]

A partir desse entendimento, como Kardec estruturou todo o conhecimento 
que obteve através dos questionamentos aos Espíritos e o estudo de suas respostas? 
Qual foi a base?

Observemos que, no primeiro livro da Codificação Espírita –
 “O Livro dos Espíritos”, na 1ª Parte – Das causas primárias,
 primeiro capítulo – De Deus, a primeira pergunta dirigida aos
 Espíritos Superiores é:

“Que é Deus?” [6]

Por que essa preocupação em começar com o entendimento acerca de Deus?
 Porque, a partir desse entendimento, se desenvolvem toda a filosofia e
 toda a religião. Aqueles que não entenderam Deus como o ser onipotente, 
ou seja, com todo o poder, tiveram que imaginar muitos deuses. 
Aqueles que não entenderam Deus como a suprema bondade e justiça, 
tiveram de imaginar um Deus colérico, parcial, vingativo. E, 
principalmente, porque, de acordo com a ideia que fazemos de Deus, 
pautamos a nossa vida.

Kardec demonstra, assim, que o Espiritismo tem na existência de Deus o 
seu primeiro princípio basilar.

A primeira pergunta de Kardec já traz um entendimento importante: 
Deus não é uma pessoa, pois, caso contrário, Kardec teria perguntado
 quem é Deus. Interessante notar que Kardec não perguntou “Quem é Deus?”,
 pois se assim fizesse, já estaria induzindo uma resposta, estaria dando 
um sentido de personificação, uma ideia antropomórfica, ou seja, estaria
 imaginando Deus com a figura de um homem, velho ou jovem. Ao longo
 do tempo, nós trouxemos Deus até a nossa pequenez, demos-lhe até a forma
 humana... Mas com Moisés e Jesus já temos o entendimento de que
 somos nós que devemos nos esforçar para subir até Ele — nós é que
 precisamos nos aproximar de Deus, e não humanizar Deus.

Também Kardec não perguntou “O que é Deus?”, regido por artigo, 
porque aí estaria “coisificando” Deus, já que o artigo definido masculino 
singular é utilizado para definir coisas. Até a pergunta tem a sua ciência,
 e fica o convite de, sempre que possível, em nossos estudos, prestarmos
 atenção não só à resposta, mas também à pergunta que 
Allan Kardec elaborou, pacientemente, com sabedoria, para obter a
 resposta mais completa, mais alinhada com o que ele queria realmente saber.
 “Que é Deus” deixa aos Espíritos a liberdade de responderem sem induções, 
sem ideias pré-concebidas.

Abrindo “O Livro dos Espíritos”, então, à primeira questão, 
os Espíritos Superiores responderam, em síntese brilhante:

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” [6]

Sendo Causa Primária, é o criador de tudo. E sendo a Inteligência
Suprema, nossa inteligência, ainda não desenvolvida, não tem condições 
de alcançá-Lo e entendê-Lo em plenitude.

Kardec continua:

“Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito?” [7]

Lembremos que o infinito tem relação com aquilo que desconhecemos. 
É como se inventássemos uma palavra nova, uma palavra que não tem
 sentido para nós porque não conhecemos, e quiséssemos dizer que Deus
 é esta palavra. Não estaríamos esclarecendo nada, porque desconhecemos 
o sentido do novo termo. Assim também os Espíritos respondem, à questão 
02 de “O Livro dos Espíritos”, que dizer que Deus é o infinito é uma pobreza
 de linguagem humana, uma definição insuficiente, incompleta, que não 
consegue definir o que está acima da linguagem humana.

Kardec apresenta um comentário a essa resposta. Ele diz:

“Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração. 
Dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa 
mesma, é definir uma coisa que não está conhecida por uma outra que 
não o está mais do que a primeira.” [7]

Deus é o máximo em tudo que podemos imaginar. Mas não podemos 
dizer que Ele é o infinito; seria tomar o atributo, a qualidade, pela coisa
 mesma. Assim, ser infinito é uma das qualidades ou atributos de Deus
 e não podemos definir “algo” por seus atributos.

Acompanhemos mais algumas questões sobre Deus:

Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?

Não; falta-lhe para isso o sentido.”

Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade?

Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria.

Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e
 compreenderá.” [8]

Para compreender a Deus plenamente, falta-nos o sentido, que só poderá 
ser adquirido por meio da completa depuração do Espírito, ou seja,
 quando formos evoluídos.

Então isso significa que nosso entendimento de Deus deve ser nulo?
 Definitivamente não deve ser assim, daí o nosso esforço para,
 dentro das nossas possibilidades, formar a ideia mais clara e mais 
verdadeira de Deus. Essa foi a mesma preocupação de Kardec, quando perguntou:

Embora não possamos compreender a natureza íntima de Deus, podemos 
formar ideia de algumas de suas perfeições?

De algumas, sim. O homem as compreende melhor à proporção 
que se eleva acima da matéria. Entrevê-as pelo pensamento.”

Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, 
único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos ideia completa de
 seus atributos?

Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém,
 que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente,
 as quais a vossa linguagem, restrita às vossas ideias e sensações, 
não tem meios de exprimir. A razão, com efeito, vos diz que Deus 
deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma
 lhe faltasse, ou não fosse infinita, já ele não seria superior
 a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas
 as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude
 e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.” [9]



Deus para nós Umbandista e filhos da 
FRATERNIDADE UMBANDA DE JESUS CRISTO é:

  • A suprema e soberana inteligência – a inteligência do homem
  •  é limitada, pois não pode compreender tudo o que existe. A de Deus, tem de ser infinita.

  • Eterno – sem começo e sem fim.

  • Imutável – se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o 
  • Universo nenhuma estabilidade teriam.

  • Imaterial – sua natureza difere de tudo o que chamamos de matéria.
  •  Se fosse material, não seria imutável.

  • Único – se muitos deuses houvesse, não haveria unidade no Universo.

  • Onipotente – se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia 
  • conceber um ser mais poderoso, até o fim da escala. Esse ser seria Deus.

  • Soberanamente justo e bom – a sabedoria das leis divinas se revela em tudo, nas pequenas e nas grandes coisas.

  • Infinitamente perfeito – é impossível conceber-se Deus sem o infinito 
  • das perfeições, sem o que sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse.

“As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, 
glorificam a Deus; unicamente destroem o que os homens edificaram 
sobre as falsas ideias que formaram de Deus.” [10]

Refletir sobre Deus...

Tomemos um ou mais dos atributos de Deus, listados acima, e pensemos, 
com nossas próprias palavras, ideias e valores, em sua importância para
nossas vidas. Alguns exemplos:

  • Quando penso na imutabilidade de Deus, considero que suas leis também são
  •  imutáveis e que sou eu que devo esforçar-me por compreendê-las e cumpri-las. 
  • Quem precisa se transformar sou eu. A imutabilidade de Deus é um ponto de 
  • segurança em meio a mutabilidade de tudo na vida.
    Como Deus é imutável, eu transformo-me, aprimoro-me, para aproximar-me
  •  cada vez mais de Deus.

  • Quando penso que Deus é soberanamente justo e bom, considero que tudo o 
  • que ocorre é para meu aprimoramento, mesmo o que nos parece negativo
  •  neste momento. Tudo são lições para sermos melhores.
    Como Deus é soberanamente justo e bom, eu preciso desenvolver minha fé
  •  para sentir-me amparada(o) em todos os momentos.

Que Jesus continue protegendo-nos e fortalecendo-nos para, cada vez com
 mais decisão e coragem, seguirmos o caminho que nos levará a Deus.

Saravá Fraterno a todos!

SE NÃO FAZES AS COISAS MÍNIMAS, 

POR QUE ESTAIS ANSIOSOS PELAS MAIORES?

coisas-pequenas

Coisas mínimas
“Pois se nem ainda podeis fazer as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras? ” – Jesus. (Lucas, 12:26.)
Pouca gente conhece a importância da boa execução das coisas mínimas.
Há homens que, com falsa superioridade, zombam das tarefas humildes, como se não fossem imprescindíveis ao êxito dos trabalhos de maior envergadura. Um sábio não pode esquecer-se de que, um dia, necessitou aprender com as letras simples do alfabeto.
Além disso, nenhuma obra é perfeita se as particularidades não foram devidamente consideradas e compreendidas.
De modo geral, o homem está sempre fascinado pelas situações de grande evidência, pelos destinos dramáticos e empolgantes.
Destacar-se, entretanto, exige muitos cuidados. Os espinhos também se destacam, as pedras salientam-se na estrada comum.
Convém, desse modo, atender às coisas mínimas da senda que Deus nos reservou, para que a nossa ação se fixe com real proveito à vida.
A sinfonia estará perturbada se faltou uma nota, o poema é obscuro quando se omite um verso.
Estejamos zelosos pelas coisas pequeninas. São parte integrante e inalienável dos grandes feitos. Compreendendo a importância disso, o Mestre nos interroga no Evangelho de Lucas: “Pois se nem podeis ainda fazer as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras? ”
Fonte: extraído do livro “Caminho, Verdade e Vida”, de Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel. Federação Espírita Brasileira.

10620625_352858361546805_3927231105982474771_n
Ótima para descarrego e para energização, batida contra as rochas e as areias da praia, vibra energia, por isso nunca se apanha água do mar quando o mesmo está sem ondas. A energia salina do mar “queima” as larvas e miasmas astrais, principalmente sob a vibração de Yemanjá. Podemos ir molhando os chacras à medida que vamos adentrando no mar, pedindo licença . No final, podemos dar um bom mergulho de cabeça, imaginando que estamos deixando todas as impurezas espirituais e recarregando os Corpos de sutis energias. Ideal se realizado em mar com ondas. Saudemos Mamãe Yemanjá e todo o Povo do Mar.
Agua de Cachoeira
Com a mesma função do banho de mar, só que executado em águas doces. A queda d’água provoca um excelente “choque” em nosso corpo, restituindo as energias, ao mesmo tempo em que limpamos toda a nossa alma, é água batida nas pedras, nas quais vibra, crepita e livra-se de todas as impurezas. Além disso, é nas águas das cachoeiras que conseguimos retirar qualquer impregnação de sangue projetada em nosso corpo etérico. Ideal se tomado em cachoeiras localizadas próximas de matas e sob o sol. Saudemos Mamãe Oxum e todo Povo d’água.
Agua de Rios e Lagos
Tem também grande propriedade curadora e equilibradora. Se o rio tiver pouco movimento, quase parado, assim como a lagoa ou mangue, essa água tem uma energia decantadora e curadora. Saudemos Nanã Buruquê. Se o rio for bem movimentado com corredeiras, a energia da água é energética, equilibradora e reparadora. Saudemos Mamãe Oxum.
10649503_352862441546397_5592795274927251614_n
Água da pureza, do equilíbrio, da harmonização e da paz. Envolve nossos chacras desobstruindo-os e equilibrando- os. É uma água muito fácil de se encontrar, por isso aproveitem esse Axé. Saudemos Oxalá.
Agua de Poço
É excelente nos casos de doenças, tanto no corpo espiritual como no corpo astral, pois tem uma grande energia transmutadora. Essa água está em contato com a terra, que é o agente mais poderoso de regeneração física absorvendo a energia ruim da área afetada colocando em seu lugar uma energia boa. A cura se processa graças a uma troca de energia devido a interação entre os componentes físico, químico e energético que a terra oferece. Saudemos Obaluayê.
Agua de Chuva
É altamente energética e purificadora. É a água que entrou em estado de vaporização e absorve toda a energia do ar, quando novamente entra em outro estado de mudança e retorna ao estado liquido, caindo do céu sobre a terra. Por isso é utilizada justamente nos momentos em que precisamos de mudança. A água da chuva, quando cai é benéfica e pura, porém, depois de cair no chão, torna-se pesada, pois atrai as vibrações negativas do local, sendo ótima também para banhos de descarrego e limpeza de ambientes, pois é ela que limpa as ruas e as encruzas carregando todas as vibrações dos trabalhos arriados nesses locais. Saudemos Yansã, Dona do tempo e das tempestades.

Gira de Exu não é “Casa da Mãe Joana”

Quando comecei a frequentar um Terreiro de Umbanda, não posso negar que encarava a Linha dos Exus e Pombagiras com alguma desconfiança e até receio. As imagens com chifres, capas negras e até nudez, os altares com bebidas alcóolicas e charutos e tudo aquilo que ouvimos por aí é muito marcante e causa-nos uma ideia inicial pouco positiva. Foi assim comigo e sei que é assim com muita gente.
Antes da minha primeira Gira de Exu eu estava bastante ansiosa, sem saber direito o que esperar. Será que as entidades incorporadas seriam assustadoras como as imagens? Será que fariam trabalhos de amarração e de magia negativa? Será que nessas Giras incentivam a vingança e outras posturas imorais? Eram essas e muitas perguntas que me passavam pela mente.
Passando pela primeira Gira de Exu e por outras Giras posteriormente, percebi que os mitos que as pessoas criam por aí são absurdamente falsos. Vamos a eles (os mitos):
1 – Exus não são “demônios”
Sendo entidades de Umbanda, obviamente os Exus e Pombagiras são entidades que trabalham apenas para o bem e não sustentam trabalhos de magia negativa. O trabalho dos Exus consiste em aplicar a Lei Divina, ajudando a trazer para as nossas vidas as consequências daquilo que praticamos, seja para o bem ou para o mal. Os Exus não se vingam, não “aprontam”, não colocam o mal no caminho de ninguém; ajudam-nos a colher aquilo que plantamos, tanto para aprendermos com as experiências negativas como para crescermos com as nossas virtudes.
2 – O uso da bebida e do fumo não é para diversão
Já ouvi muitas vezes que os Exus e Pombagiras, quando incorporados, pedem sempre bebidas e fumo para sentirem os prazeres da vida carnal, dos quais sentem saudades. Mas isto não é bem assim: apesar de terem vivido encarnações na Terra, como nós, e de estarem próximos da nossa faixa vibratória, os Exus são espíritos certamente mais evoluídos do que nós que estamos aqui, agora, e por isso são nossos Guias espirituais, sendo que já não estão presos a estes “prazeres carnais”. O uso da bebida e do fumo nas Giras e nas oferendas visa possibilitar que os Exus manipulem a energia mais densa contida nestas substâncias para realizar o seu trabalho de limpeza, neutralização ou corte de magias negativas nos consulentes.
3 – Gira de Exu não é “Casa da Mãe Joana”
As Giras de Esquerda podem sim ser mais descontraídas, pelo tipo de roupa que se usa, pela linguagem e risada dos Exus e Pombagiras e pelo uso, às vezes mais intenso, de bebidas alcóolicas. Por conta disso, vejo muitos umbandistas acharem que nestas Giras pode tudo, desde beber e fumar enquanto supostamente faz a sustentação energética dos trabalhos, até falar palavrão, dançar durante os Pontos como se estivessem numa discoteca e usar roupas exageradas ou vulgares. Estes comportamentos não são aceitáveis em outras Linhas de trabalho; por que, então, achar que o são nas Giras de Exu? O trabalho realizado nas Giras de Exu é tão sério como o que é realizado numa Gira de Caboclo, de Pretos Velhos ou qualquer outra Linha, e deve ser realizado com respeito, concentração e dedicação. Se não houver atenção a isto, há grande hipótese de as entidades presentes não serem verdadeiramente Exus e Pombagiras, mas sim espíritos zombeteiros que quererão, estes sim, aproveitar o fumo, o álcool e a energia de baixa vibração manifestada pelos médiuns e consulentes.
Cabe a nós, umbandistas, procurar informação correta e ajudar a derrubar estes mitos que criam sobre os Exus. Faça a sua parte!
Laroyê!
Texto de Juliana Silva.

           Umbanda e candomblé 

           conquistam jovens descolados no Brasil 

À esquerda, Andréa, artista plástica conectada a Iemanjá. Em casa, faz banhos e orações. À direita, Janaína, “filha de Omulu” e ativista pelos direitos da mulher negra (Foto: Rogério Assis)

Esqueça a imagem das pessoas angustiadas que procuram consolo para a dor da                          morte de parentes. Agora, jovens descolados deixam de ir à balada para celebrar                          os orixás, receber passes e fazer amigos. Conheça alguns dos novos frequentadores                      da umbanda e do candomblé


A artista plástica Andréa Tolaini não sabe o que fazer com sua bicicleta elétrica. O veículo foi um presente em forma de pedido de casamento e tem valor sentimental para a paulistana de 30 anos, mas a verdade é que ela prefere pedalar à moda antiga, sem a ajuda de motor. Do seu ateliê, no bairro do Butantã, em São Paulo, sai pelas novas ciclofaixas da metrópole para se reunir com os clientes que encomendam seus quadros, mandalas multicoloridas pintadas em telas grandes. Tem os horários fluidos, a rotina livre e uma profissão que parece lazer. Investe seu dinheiro em shows e viagens (a última para o Peru) e, nos fins de semana, recebe os amigos para uma feijoada vegetariana em sua casa, onde mora com um gato e dois cachorros. A porta ali está sempre aberta, já que Andréa não é adepta “da vibe portão elétrico e grades até o teto”.
Gosto da liberdade de fazer os ritos do meu jeito. Não me sinto obrigada a ir ao centro: vou quando tenho vontade"
Andréa Tolaini, artista plástica
Ao menos uma vez por mês, ela vai a um terreiro de umbanda. Diz que conversa com os espíritos, pede a eles conselhos para a vida e volta para casa com indicações práticas e rituais. “Faço orações de sete dias, banhos, limpezas e agradecimentos aos orixás”, conta. “Gosto da liberdade de fazer os ritos do meu jeito. Não me sinto obrigada a ir ao centro: vou quando tenho vontade.” Nascida numa família católica, Andréa não tinha contato com religião desde que saiu do colégio cristão onde estudava. Até que, em 2008, foi com uma amiga a um terreiro pela primeira vez. Logo de cara, diz que recebeu de um médium um recado sobre a morte da mãe, que viria a ser diagnosticada com um câncer terminal dali a poucas semanas. “A umbanda dialoga de forma simples e rápida com você, não tem nenhuma metáfora ou mensagem rebuscada”, afirma. A mãe morreu no ano seguinte. Desde então, ela procura ajuda dos guias, os espíritos que incorporam nos médiuns em dia de gira, como são chamadas as cerimônias, sempre que acha necessário. Foi assim quando quis largar a carreira de oito anos em empresas de publicidade para viver de sua arte.
Médiuns antes da gira em centro da Zona Sul de São Paulo (Foto: Rogério Assis)
Andréa faz parte de um grupo bem informado de jovens urbanos que trocou a crença familiar pela fé nas tradições africanas. É por causa de pessoas como ela que, nos dois últimos censos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística), os frequentadores de cultos afro-brasileiros aparecem no topo do ranking de escolaridade: ficam em segundo lugar, atrás apenas de kardecistas e à frente decatólicos e evangélicos. São comunicadores, estudantes e criativos cujas escolhas de vida não combinam com grandes empresas mas, sim, com a liberdade de ir e vir. São membros da geração Y, essa nascida a partir da década de 80, urbana e conectada à internet, em que os psicólogos sociais identificam uma aversão clara à hierarquia e uma necessidade de se engajar em projetos com profundo significado pessoal.
Nasci numa família católica e gostava muito do convívio da igreja. Mas, com o passar dos anos, a missa foi perdendo intensidade para mim"
Rafael Mota, publicitário
O publicitário Rafael Mota, 27 anos, se sente completamente levado pelo ritual que, até três anos, desconhecia por completo. “É impossível não sentir a energia”, diz ele.Sua fé não vem de berço. Como a maioria dos atuais adeptos das religiões afro-brasileiras, Rafael se encantou por ela depois de adulto. “Nasci numa família católica e gostava muito do convívio da igreja. Mas, com o passar dos anos, a missa foi perdendo intensidade para mim. Aquilo não prendia mais a minha atenção .”
Ele foi pela primeira vez ao centro de umbanda por curiosidade, a convite de uma colega de trabalho. Já havia visitado templos budistas, igrejas messiânicas e evangélicas, e imaginava incluir na lista a mais caricata de suas experiências religiosas. “Mas, logo que entrei, vi que tinha imaginado tudo errado. Não havia imagens amedrontadoras nas paredes, nem galinhas mortas pelo chão.” Três semanas depois, não conseguia esquecer a boa sensação de estar naquele pátio, e assim voltou uma, duas, dezenas de vezes, até se tornar parte do time da casa. Segundo a umbanda, qualquer pessoa pode desenvolver a capacidade de intermediar o mundo dos espíritos com o nosso, e foi o que Rafael fez. “Aqui as relações são mais horizontais que na igreja católica, onde a hierarquia é mais de cima para baixo. Lá, o máximo de contato físico que você tem é beijar a mão do padre. Na umbanda, é difícil não sair abraçando meia dúzia. É como se o seu ego se dissolvesse no meio do grupo.”
À esquerda, Edi, o artesão que é “filho de Ogum”, orixá equivalente a São Jorge. À direita, Karen Keppe, 29, produtora cultural e “filha de Xangô”: “A umbanda é mais sincera” (Foto: Rogério Assis)
A umbanda e o candomblé, religiões que vêm atraindo o grupo, também têm umcódigo moral amplo, baseado na lei do retorno: fazer o bem para recebê-lo e evitar fazer o mal para não sofrê-lo. “Nos cultos africanos, bem e mal estão sempre juntos”, diz a produtora cultural e artista paulistana Karen Keppe, 29 anos, que teve o primeiro contato com o candomblé aos 22, ainda na faculdade de história. “Acho essa visão sincera, mais conectada com a realidade”, conclui. Hoje, frequenta um centro umbandista em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, onde não raro encontra pessoas de seu meio de trabalho, como músicos com quem colabora em festas hypadas no Centro paulistano. O local é próximo ao apartamento que ela divide com o namorado e um amigo. Ela trabalha em casa, onde estuda novas maneiras de produzir música, a partir de objetos inusitados como rodas de bicicleta e pequenos ventiladores. Pelas janelas, estão pendurados outros aparelhos curiosos: são sensores caseiros de qualidade do ar, desenvolvidos pelo namorado de Karen para um projeto que mapeia a poluição da cidade. A criação dos sensores foi feita com um programa de computador “aberto”, ou seja, o projeto está disponível na internet e pode ser copiado e replicado por quem quiser. Estamos falando de uma turma para quem a vida colaborativa faz mais sentido que a corporativa. Esse comportamento é muito típico dos jovens do século 21, como já havia apontado o sociólogo Michel Maffesoli, que se dedica a entender a pós-modernidade. “O indivíduo, que era a marca mais forte da era moderna, perde valor para a comunidade, o nós vence o eu”, diz o francês no livro O Tempo das Tribos: o Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa (Forense Universitária, 338 págs., R$ 75).
Nos cultos africanos, bem e mal estão sempre juntos"
Karen Keppe, produtora cultural e artista
Dentro desse contexto, é compreensível que a hierarquia horizontal da umbanda seja tão confortável para os novos adeptos. “Nunca me dei bem com chefe”, diz o designer paulistano Edi Marreiro, 33 anos, que, em suas palavras, optou por não fazer faculdade para “ter uma vida profissional mais variada”. No ano passado, deixou o trabalho como monitor de uma clínica de dependentes químicos para tornar-se designer e produzir objetos de decoração para a marca que criou com a namorada. Apesar do pouco tempo de empreitada, o casal já colhe os frutos e se sustenta com as vendas de seus produtos em um e-commerce, o Casa do Rouxinol.
Alto, com barba cheia e sete tatuagens espalhadas pelo corpo, Edi frequenta um terreiro no bairro do Morumbi, em São Paulo, e diz ter ampliado por lá até mesmo seus interesses mundanos. “Mudou a minha forma de encarar a música, os instrumentos. Antes, gostava só de rock e música eletrônica e agora gosto de percussão, de samba”, afirma. Seu envolvimento foi tão grande que se tornou ogã, um líder que canta e toca atabaque para que os espíritos possam trabalhar. Parte de suas tarefas é receber as pessoas que chegam pela primeira vez ao centro, e foi assim que conheceu a atual namorada, Raji Rajii, de 26 anos. Fora do terreiro, ele participa de um grupo de maracatu, o ritmo pernambucano que tem raízes na cultura dos escravos. Também é fã de músicos nacionais, como os rappers Emicida e Criolo.
Edi se prepara para as giras com alguns rituais: nas 24 horas que antecedem os trabalhos, não tem relações sexuais, não bebe álcool nem usa qualquer substância que possa alterar a consciência, e não come carne vermelha. Também toma um banho de sete ervas. A dedicação causa estranhamento nos amigos de fora da religião. “Tem quem olhe torto, mas não ligo.”
O branco é a cor ritualística nos terreiros (Foto: Rogério Assis)
A assistente social Janaína Grasso, 27 anos, adepta do candomblé, sabe bem como é driblar o preconceito e a intolerância religiosa. “Sou mulher, preta e baiana. Só por isso as pessoas já me chamam de macumbeira. Mas na minha religião ninguém orienta a amarrar marido ou fazer trabalhos para prejudicar os outros”, diz. Moradora do boêmio bairro da Vila Madalena, ela diz preferir as festas de rua que São Paulo oferece a locais que cobram entrada (“mais um jeito de segregar”). Na reta final do mestrado que analisa questões de gênero, ela ainda lidera o coletivo Em Alto e Bom Tom, focado no empoderamento de mulheres negras. Com uma amiga, ela monta exposições itinerantes de retratos de lindas jovens usando turbantes, cabelos afro, tranças e exibindo corpos suntuosos. As imagens visam dar mais confiança e suprir a falta de representação positiva de crianças e adolescentes afrodescendentes.
A umbanda, assim como o candomblé, tem três coisas boas da vida: música, dança e comida"
Reginaldo Prandi, sociólogo das religiões
Nas semanas em que conversou com a reportagem, Janaína faltou a uma festa importante do terreiro que frequenta, com muita música, rezas e oferendas, por causa da dissertação. No candomblé, as cerimônias são guiadas pelo pai de santo e os cantos são em iorubá ou outras línguas dos antigos escravos. Diferentemente da umbanda, quem se manifesta por meio dos médiuns são os orixás – e não espíritos antigos. Por fim, se o praticante tem uma questão particular a tratar, pede uma sessão individual com o pai ou a mãe de santo, que fará perguntas aos deuses pelo jogo de búzios. São consultas que nada lembram as confissões e punições da igreja católica ou as expurgações dos evangélicos pentecostais.
Para o sociólogo das religiões Reginaldo Prandi, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), o aspecto lúdico coloca os cultos africanos numa posição atraente para esses jovens. “A umbanda, assim como o candomblé, tem três coisas boas da vida: música, dança e comida”, resume. Além disso, a estética de cores fortes e contrastantes, rendas e ornamentos ricos, e a conexão com folhas, ondas do mar e flores ajudam a atrair novos adeptos, afirma o estudioso. “O mundo está questionando sua relação com a natureza e, nos grandes centros urbanos, são raros os momentos em que você fica com os pés no chão, em contato com tudo isso”, analisa. Essa turma antenada mostra que, hoje, nada é mais moderno do que buscar a paz nas coisas simples da vida.

Fiéis do candomblé  reforçam tradição 

na BA e reverenciam 

Oxalá no Bonfim

Lavagem na Basílica reuniu filhos e mães de santo em caminhada de 8 km.
Ao lado de católicos, fé e devoção ultrapassaram intolerância religiosa.


Mãe de santo abençoa fiel na porta da Igreja do Bonfim, após lavagem do adro, em Salvador (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Mãe de santo abençoa fiel na porta da Igreja do Bonfim, após lavagem do adro, em Salvador (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Oito quilômetros percorridos e a emoção de completar mais uma promessa feita ao Nosso Senhor Jesus do Bonfim. Nesta quinta-feira (14), fiéis do candomblé dividiram espaço com católicos para caminhar até a Colina Sagrada, em Salvador, ao som do samba de roda, batuques e fanfarras.
Como em uma festa de largo "andante", manifestações culturais de diversos cantos do estado. Roda de capoeira, boi bumbá e bandas de sopro somados aos milhares de baianos e turistas que acompanharam o cortejo das baianas até a Igreja do Bonfim.
Roda de capoeira chama atenção de fiéis durante percurso (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Roda de capoeira chama atenção de fiéis durante percurso (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Por volta das 8h, a caminhada dos católicos deixou a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e seguiu rumo ao templo. No meio do percurso, Dona Belmira Miranda, 76, esperava ansiosa o momento de acompanhar o desfile das mães e filhas de santo que participaram da lavagem do adro da Igreja do Bonfim.
"Desde criança que faço a caminhada. Sou Ekéde [cargo religioso da religião de matriz africana] do terreiro de Pai Márcio de Oyá. Há dez anos que venho ao cortejo com objetivo de reverenciar oxalá", diz orgulhosa.
Belmira também afirma que é católica e que nada a impede de seguir as duas religiões. "Sim, vou à missa sempre. Sou católica, do candomblé e sou 'feita' [referência a quem é filho de santo na religião afro-brasileira", diverte-se.
Dona Belmira Miranda, 76, é filha de santo e católica (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Dona Belmira Miranda, 76, é filha de santo e católica (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Entre olhares reflexivos, Dona Maria Isabel, 60, carregava uma quartinha [espécie de vaso] com flores e a típica água de cheiro para lavar o adro da Igreja do Bonfim como forma de pagar uma promessa.
Esse foi o primeiro ano que a filha de Oxum fez o trajeto da Igreja da Conceição da Praia até o Bonfim. Apesar de ser a primeira vez que fez o trajeto, Maria Isabel declarou que frequenta a festa desde criança.
Maria Isabel, 60, fez a caminhada pela primeira vez este ano (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Maria Isabel, 60, fez a caminhada pela primeira vez este ano (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Assim como ela, Dona Ana Maria dos Santos, de 65 anos, também participa da lavagem do Bonfim há algumas décadas. Há 12 anos, percorre os oito quilômetros com irreverência e muito samba no pé. Ao passar pelas ruas da Cidade Baixa, a filha de santo do Terreiro de Obaluaê chama atenção pela força de vontade.
A caminhada que faz há mais de uma década no dia da lavagem do Bonfim é para cumprir a promessa por ter parado de fumar. Ela ainda revelou o que leva a água de cheiro que as baianas carregam. "Coloca alfazema, arruda, macaça [folhas] e pronto", ensina.
Ana Maria dos Santos, de 65 anos, há 12 anos participa da festa (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Ana Maria dos Santos, de 65 anos, há 12 anos participa da festa (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
A mistura de sons que envolveu as milhares de pessoas que participaram do cortejo se destacou durante o percurso das ruas antigas da Cidade Baixa. Entre os grupos de samba de roda, o de Irará, cidade a 140 quilômetros de Salvador. Os mais de 30 integrantes se concentraram desde as 7h da manhã na porta da Igreja da Conceição e, acompanharam a caminhada até a Colina Sagrada, tradição mantida há mais de 30 anos.
Grupo de Samba de Roda de Irará participa há mais de 30 anos da lavagem do Bonfim (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Grupo de Samba de Roda de Irará participa há mais de 30 anos da lavagem do Bonfim (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Seguindo o cortejo das baianas, ao chegar até à Colina Sagrada, fiéis do Candomblé e da Igreja Católica disputaram espaço na porta da Igreja do Bonfim. O objetivo foi chegar até a grade e amarrar a fitinha do Bonfim para fazer os pedidos e agradecer. Além do ritual típico de ambas as religiões, mães de santo e pais de santo abençoavam aqueles que reverenciavam Oxalá, que no sincretismo religioso é o Senhor do Bonfim. 
Aos 66 anos, Maria da Penha faz a caminhada de oito quilômetros há oito anos. Natural de Recife, a filha de Oxum com Oxalá pediu paz para a família e distribuiu água de cheiro entre os fiéis que se aglomeraram na porta da igreja em busca de proteção. "Muita paz para meus filhos e todos vocês. O Candomblé é uma religião para Deus. É uma emoção muito grande para mim estar aqui e reverenciar meus orixás", agradece.
Maria da Penha, de 66 anos, natural de Recife, participa da festa há oito anos (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Maria da Penha, de 66 anos, natural de Recife, participa da festa há oito anos (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Após a prece final feita pelo padre Edson Menezes, reitor da Igreja do Bonfim, seguido de uma alvorada de fogos e do hino do Senhor do Bonfim na porta do templo católico, por volta das 12h15, foram entregues vassouras para que as baianas pudessem fazer a lavagem do adro da igreja.
O ponto alto da festa religiosa emocionou fiéis, que foram abençoados pelas devotas de Oxalá vestidas de baianas com muita água de cheiro. Como defendeu uma das filhas de santo que acompanhou a festa, Maria Isabel, se todo muçulmano vai a Meca uma vez ao ano, uma vez na vida o baiano tem que ir até a Colina Sagrada.
Turista se emociona com bênção de baiana na porta da igreja (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Turista se emociona com bênção de baiana na porta da igreja (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Água de cheiro é distribuída por baianas na porta da igreja do Bonfim (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Água de cheiro é distribuída por baianas na porta da igreja do Bonfim (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Bandas de sopro animaram o circuito de oito quilômetros até o Bonfim (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Bandas de sopro animaram o circuito de oito quilômetros até o Bonfim (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Rua que dá acesso à colina sagrada é tomada por fiéis vestidos de branco (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Rua que dá acesso à colina sagrada é tomada por fiéis vestidos de branco (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Orquestra Reginaldo de Xangô participa há mais de 45 anos do cortejo (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Orquestra Reginaldo de Xangô participa há mais de 45 anos do cortejo (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Grupo folclórico de Lustosa também participou do cortejo até a colina sagrada (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Grupo folclórico de Lustosa também participou do cortejo até a colina sagrada (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Baiana desfila pelas ruas da Cidade Baixa para pedir proteção a Oxalá (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Baiana desfila pelas ruas da Cidade Baixa para pedir proteção a Oxalá (Foto: Danutta Rodrigues/G1
)