segunda-feira, 24 de agosto de 2015

PAI ANTONIO DE ARUANDA


Espírito que se manifesta como um preto velho, Pai Antonio foi um escravo em uma de suas encarnações, sendo também ele a primeira entidade a pedir uma guia (colar) de trabalho, até hoje usadas pelos membros da Tenda e carinhosamente chamado de "Guia de Pai Antonio".
Foi também o espírito responsável pela inserção na Umbanda dos pontos cantados, enquanto esteve presente incorporando na Tenda foi o responsável por grande número dos pontos criados. O primeiro ponto de Umbanda, nasceu logo na primeira sessão quando Pai Antonio pediu o seu cachimbo. Contando a história de sua passagem pela terra, ele explicou que por ser um senhor de idade, não ia mais para o corte da lenha, mas quando foi buscar um feixe de lenha para a sua necessidade, se sentiu cansado, encostou no tronco de uma árvore e nunca mais acordou. Quando perguntando se sentia falta de alguma coisa, lembrou que o único bem pessoal que não pertencia ao senhor era o seu pito, sendo este solicitado no ponto a seguir:
“Meu cachimbo está no toco,
Manda moleque buscar.
Meu cachimbo está no toco,
Manda moleque buscar.
No alto da derrubada,
Meu cachimbo ficou lá.
No alto da derrubada,
Meu cachimbo ficou lá.
Que arruda tão bonita,
Que vovó mandou arrancar.
Que arruda tão bonita,
Que vovó mandou arrancar
Mas não chore meu netinho
Que vovó manda plantar.
Mas não chore meu netinho
Que vovó manda plantar.”

Em outra encarnação, Pai Antonio teria sido um médico respeitado na região serrana do Rio de Janeiro, vem desta encarnação o seu conhecimento da medicina.
Uma ocasião, numa pequena reunião de cinco pessoas, um protetor caboclo descarregava os maus fluidos de uma senhora, enquanto também incorporado, um preto velho, Pai Antônio, fumava um cachimbo, observando a descarga.
- Cuidado, caboclo avisou o preto. O coração dessa filha não está batendo de acordo com o pulso.
- Como é que Pai Antônio viu isso? Deixe verificar, pediu um médico presente à sessão.
Depois da verificação, confirmou o aviso do preto, que o surpreendeu de novo, emitindo um termo técnico da medicina, e explicando que o fenômeno não provinha, como acreditava o clínico, de suas causa fisiológicas, porém de ação fluídica, tanto que terminada a descarga, se restabelecia a circulação normal no organismo da dama. E assim aconteceu.
O doutor, então, quis conversar sobre a sua ciência com o espírito humilde do preto, e, antes de meia hora, confessava, com um sorriso, e sem despeito, que o negro abordara assuntos que ele ainda não tivera oportunidade de versar, e estranhava:
- Pai Antonio não pode ser o espírito de um preto da África e não se compreende que baixe para fumar cachimbo e falar língua inferior ao cassanje¹.
Foram muitas as curas praticadas por Pai Antonio, outra pequena história, contada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas em uma de suas gravações fala sobre o Pai Antonio, nos mostrando o conhecimento que esse espírito possui da plantas presentes na natureza.
Certa vez em busca da cura de sua filha, o deputado federal José Meirelles em uma consulta Pai Antonio lhe responde:
- Vai a tua casa, no último canteiro vai mexer a terra e encontrará algumas raízes, vai cozinhar essas raízes e dar a sua filha que ela estará curada.
Era a batata da angélica, porque não havia naquela ocasião flores, as batatas estavam somente de baixo da terra.
A menina ficou curada, e, após certo tempo, o deputado fundou uma das sete primeiras tendas por ordem do Caboclo das Sete Encruzilhadas.
Em outro ponto, Pai Antonio mostra seu conhecimento da medicina.
“Da licença Pai Antonio,
Que eu não vim lhe visitar,
Eu estou muito doente,
Vim pra você me curar.
Se a doença for feitiço,
Bulalá em seu gongá,
Se a doença for de Deus,
Ah, Pai Antonio vai curar.
Coitado de Pai Antonio,
Preto Velho curando,
Foi parar na detenção ai,
Por não ter um defensor.
Pai Antonio é quimbanda, é curandô,
Pai Antonio é quimbanda, é curandô,
É pai de mesa é curandô,
É pai de mesa é curandô,
Pai Antonio é quimbanda, é curandô,
Pai Antonio é quimbanda, é curandô.

Pai Tomé das Almas...

Um preto velho firme e decidido.


Quando eu conversei pela primeira vez com um Pai Tomé incorporado, percebi um preto-velho desconfiado e ranzinza, quase briguento. Enquanto você não conversa com ele e não o conhece direito é assim que você o descreve... E eu pensei: igualzinho ao "São Tomé da Bíblia" (eu conhecia a história bíblica de São Tomé e eu sabia que Tomé era o discípulo que pediu para tocar as feridas de Jesus só para ter certeza de que Ele era mesmo o Mestre Ressuscitado). Então, procurei saber sua história de vida e o porquê desse preto-velho pertencer à Falange de São Tomé.
Sua história é diferente de outros negros de sua época. Ele viveu no século XIX, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Cabo Frio. Quando ele nasceu, seus pais ainda eram escravos, mas ele já nasceu pela Lei do Ventre Livre. Então foi afastado de seus pais e teve que mendigar desde cedo para sobreviver. Aprendeu a pescar e logo tornou-se mercador de peixes. Para se defender dos ataques dos brancos e dos negros mais abastados, ele aprendeu a lutar a capoeira e a usar o facão como arma. Mas Tomé era amaldiçoado; desde criança ouvia vozes, via almas de pessoas que já morreram e enxergava os dois mundos em constante contraste. Sua vida era um constante isolamento, por conta de seus fantasmas interiores.
Aos poucos muitos espíritos começaram a cercá-lo e a acompanhá-lo. A todo momento, onde quer que ele fosse, as almas estavam lá acompanhando-o, esperando-o e "azucrinando-o"... Chegou um momento que ele não mais aguentou e pensou em dar cabo da própria vida. Colocou seu facão próximo ao pescoço e ia degolar-se, quando um soldado de vestimentas reais parou em sua frente e gritou bem altou: "Patakori!" A sua armadura brilhou e ele disse: "- Como ousa, óh escravo, afrontar o teu Pai Ogun, que te tirou da senzala?! Afasta essa faca de ti e vai cumprir tua missão e salvar as almas que te procuram." E num brado bem alto, o cavaleiro sumiu: "- Jesse, Jesse!"
Tomé caiu por terra e chorou, pois percebeu que São Jorge viera salvá-lo de um ato insano. Voltou ao cais. Pescou seu peixe, assou, matou sua fome e dormiu. Ao amanhecer do dia, procurou uma casa abandonada a beira mar. Reformou a casa, consertou, ajeitou, limpou e fez o que fez. Por fim, foi para o mar e pescou quantos peixes conseguiu pescar. Vendeu todos no mercado. Com o dinheiro comprou uma imagem de Nosso Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora dos Navegantes. Também comprou velas e roupas. E voltou para casa. Ajeitou tudo e colocou uma placa dizendo: "Oração e Benzeduras".
No outro dia, os primeiros raios de sol acolheram uma fila de dez pessoas, que já esperavam por atendimento. E assim foi que Tomé iniciou seu trabalho de benzedor. Ele trabalhou sem parar por setenta anos... Mas, não viveu só. Um dia, quando já faziam dez anos que Tomé trabalhava, entrou em seu casebre uma moça da Aldeia dos Pescadores, tão acanhada e com medo, que mal levantava a cabeça. Ela se chamava Rosa Maria e, por coincidência, possuía o mesmo dom que Tomé.
Tomé tratou dela, que passou a frequentar sua casa e auxiliá-lo nos atendimentos. Os dois se conheceram melhor e passaram a  viver juntos. Essa convivência durou sessenta anos. Cumpriram missão e auxiliaram muitas pessoas que necessitavam de ajuda. Bom, assim é o Pai Tomé: sempre alerta e desconfiado, até que conheça bem a intenção do coração do filho...
 


A História de Vovô Benedito da Calunga



Meu cachimbo está no toco Manda moleque buscar!
No alto da derrubada Meu cachimbo ficou lá!
Quem não pode com a mandinga não carrega Patuá.
Na aroeira de Vô Benedito Preto velho mandou me chamar.
Chama chama chama na aroeira de Vô Benedito.
La no mato tem flores tem rosário de Nossa senhora.
Na aroeira de Vô Benedito, Vô Benedito que nos valha nessa hora.
Está iluminada a nossa Umbanda Está cheio de flor no seu Gongá,
Vô Benedito sabe tudo que eu faço Vovô Benedito ilumina os caminhos por
onde eu passo.

**********************************************************************

    Vovô Benedito da Calunga é um doce, carinhoso, brincalhão e
sorridente Preto Velho, que trabalha para a caridade na Umbanda,
trazendo esperanças para os filhos que se encontram sem caminho a
seguir, trazendo alegrias para quem se entregou as tristezas, trazendo
forças para seguirmos adiante sempre com fé em Deus.

    E como ele faz tal coisa?

    Apenas com suas palavras, seu sorriso de criança levada, suas
histórias do seu tempo de cativeiro, suas lições de vida e sua fé.

    Mas quem foi e esse ser tão iluminado e divino?

    Vovô Benedito foi um negro escravizado, pela covardia dos
senhores escravocratas, e teve sua ultima encarnação vivendo entre o
final do século XVIII e o século XIX.

    Essa história de fé começou, quando Benedito nasceu em uma senzala
de uma grande fazenda cafeeira, por alguma localidade dentro do
Sudeste do Brasil.

    Como naquela época as mulheres escravizadas começavam a reproduzir
muito cedo e continuamente, o corpo não conseguia uma recuperação
adequada, e por esse motivo muitas delas desencarnavam na hora do
parto, sendo esse feito sem muitos cuidados, ocasionando vários tipos
de problemas a saúde e ao corpo físico.

    E foi assim que a mãe de nosso Benedito fez o desencarne, deixando
seu fruto com alguns poucos minutos de vida.

    Ao ver sua companheira emitindo os últimos suspiros antes de ser
entregue aos braços da tão temida morte, o pai do pequeno Benedito,
que era um negro forte e corajoso, caiu em desespero, e aos gritos
clamou por ajuda chamando pelas negras mais experientes como
parteiras, mas já era tarde demais.

    Seus gritos de desespero se tornaram gritos de ira e ódio,
chamando a atenção dos feitores algozes, que ao adentrarem na senzala
foram atacados pelo negro em desespero.

    O negro corajoso não temendo pela sua vida foi ao encontro de
forma a atacar os feitores, mas esses o prenderam e o levaram ao
tronco, aguardando as ordens do poderoso Coronel cafeicultor.

    E do tronco para a morte, após centenas de chibatadas, o negro se
foi, fazendo assim do pequeno Benedito órfão no seu primeiro dia de
vida.

    Após esse acontecido, uma negra de nome Joaquina, já mulher
madura, decide que ela a partir dessa data faria de tudo para proteger
o pequeno Benedito, nome que a própria Joaquina escolheu.

    Benedito crescia, aos cuidados da velha Joaquina, conhecida também
como a velha feiticeira da fazenda. Ela o ensinava as magias dos
negros africanos, as benzeduras para os males físicos e espirituais, a
arte da cura através das ervas e raízes.

    E assim Benedito ia crescendo, se tornando amado por seus irmãos
de cor, aprendendo as lições da vida pelos velhos negros, aprendendo
a entender o que os ventos queriam dizer, o que as estrelas nos
indicavam, o que a lua poderia nos ajudar, enfim, tudo que era
dominado pelos Orixás ele buscou entender, não para simplesmente
saber, mas para poder com isso auxiliar seus irmãos escravizados, e
tentar acalentar um pouco a dor de tanto desamores com os negros.

    Já com 5 anos de idade, Benedito começa a frequentar a sede da
casa grande, onde residiam o Coronel cafeicultor, sua esposa, e o
jovem coronel, filho do casal, com sua esposa.

    E também nessa época nascia a grande companheira do menino
escravizado, a pequena menina, única neta do coronel cafeicultor, que
anos mais tarde se tornaria além da protetora dos negros escravos, a
grande paixão do negro Benedito.

    Benedito através da velha Joaquina foi conduzido a fazer pequenas
tarefas, e assim não ficaria sobre o forte sol das grandes e
intermináveis plantações de café, algodão, cana de açúcar, entre
outras.

    E assim ele foi crescendo sobre os olhos de sua mãe de coração, e
de todos os que residiam na casa grande. inclusive da pequena menina
que já era conhecida como a "sinhazinha da fazenda".

    Benedito já crescido, após saber da história de seus pais, e saber
que seus corpos inertes foram jogados ao fundo de um grandioso lago,
nas imediações da fazenda, tomou para si a responsabilidade e a missão
de sepultar dignamente os corpos de todos escravos, que viessem a
desencarnar, seja de modo natural, ou de modo brutal nos açoites e
troncos de castigo corporais na qual todos escravizados sofriam nas
mãos de seus algozes e famigerados feitores e coronéis.

    E foi assim que ele, retirava esses corpos das imediações do
grande lago, das dezenas de troncos espalhados por intermináveis
terras da grandiosa fazenda, das senzalas fétidas, e os conduziam para
a mãe terra, numa cova, muitas das vezes cavada com as próprias mãos.

    Dali ele fazia longas rezas clamando ao Orixá Omulú para que
encaminhasse o espírito de seus irmãos desencarnados para os braços
paternais de Oxalá.

    E assim esse pedaço de terra ficou conhecido como a "Calunga do
Benedito", e com o passar dos anos sendo conhecido como "A Calunga do
Vovô Benedito", e ai a linha após seu desencarne ser da Calunga
Pequena, sendo conhecido dentro dos trabalhos da Umbanda como "Vovô
Benedito da Calunga Pequena".

    Outro fato que chamou muita atenção desse nobre negro escravizado,
era seu amor pelos seus irmãos negros. Por centenas de vezes Benedito,
trocaria de lugar com algum negro açoitado no tronco. Ao perceber que
algum negro estava no tronco pelo motivo que fosse, e esse negro não
mais resistia ser açoitado pelos feitores, Benedito pedia humildemente
que libertassem seu irmão negro, rogando pela sua vida, e em troca
ele, o próprio Benedito, ficaria no tronco para receber o restante do
castigo.

    Quando era aceito a proposta, Benedito sorria a cada açoitada,
mostrando sua fé, e rogando para Oxalá pelos feitores que o
castigavam, pedindo clemência em nome deles, pois eles eram tão
escravos quanto ele.

    E por esse motivo, após tantos açoites e tantos troncos, o velho
Vovô Benedito, ao chegar em incorporação em um Terreiro de Umbanda,
chega de forma extremamente curvada, se apoiando em sua mão direita,
sem poder ficar ereto, mas isso não tira o brilho de seus olhos,
quando ele chega ouvindo a "curimba", ao som dos atabaques, que o
fazem dançar sorridente.

    Vovô Benedito da Calunga, tinha vários dons, entre muitos o de
fazer feliz as pessoas tristes, contador de casos, rezador de crianças
com males físicos e espirituais, quebrador de magias negras,
encaminhador de espíritos sem luz, sabia reconhecer todas as ervas,
para remédios e banhos de descarrego, além de ser o grande cuidador
e protetor das crianças filhos de escravos.

    E com esse jeito carinhoso, amável,, muito brincalhão e
sorridente, Benedito já com uma idade mais madura, certo dia sofreu a
ira do coronel, que nessa época era um afilhado do pai da sinhazinha,
pois o velho coronel foi tomado por males de uma doença crônica e já
não tinha saúde para comandar a fazenda, e também dos feitores, que o
viam não como um ser especial dentro da espiritualidade, mas como um
negro fanfarrão.

    Benedito, já com a grande admiração na qual a Sinhazinha tinha por
ele, toda vez que ele passava por ela, abria um belo e carinhoso
sorriso, e assim deixando além do afilhado do coronel muito
incomodado, uma legião de feitores raivosos.

Com um terno sorriso ela retribuía o largo sorriso dele, além de
elogiar com a frase rotineira: "Ver seu sorriso pelo amanhecer, é
como ver o sol brilhar mesmo coberto por grandes nuvens escuras. Isso
me alegra bastante".

    Ao ouvir isso o afilhado do coronel ameaçou a Benedito, que a
próxima vez que o negro abrisse o sorriso a linda sinhazinha, ele
mandaria arrancar os seus dentes.

    E numa tarde, Benedito encantado pela beleza de sua sinhazinha,
não se conteve e abriu um belo e largo sorriso ao encontro dela, sem
perceber que estava sendo visto ao longe pelo afilhado do coronel e de
seus jagunços, que de imediato o pegaram e o levaram para o tronco,
açoitando e fazendo cumprir a promessa de arrancar todos os dentes de
sua boca.

    Benedito após torturado, humilhado foi deixado no tronco, sendo
após levado a senzala praticamente sem vida para ser tratado pela sua
mãe de coração, a velha Joaquina, que com extremo esforço, centenas de
ervas, chás, banhos, rezas e muita vigília consegue fazer com que
Benedito se recuperasse, até ficar totalmente são.

    Hoje nas casas de Umbanda ele conta essa história, sem
ressentimento, mas muito agradecido a sua velha e amada Chica pelos
cuidados que teve com ele, além de frisar sempre que em sua boca não
há um dente sequer.

    Vovô Benedito, tinha o grande sonho de sair do cativeiro, tentar
esconderijo no tal sonhado e protegido Quilombo do Rei Congo, por
algumas vezes ele tentara a fuga, mas, ao vir a lembrança de que teria
de deixar para trás a sua querida mãe de coração, a velha Joaquina, e
de não mais poder ver o sorriso de sua sinhazinha, ele desistia, e
novamente voltava ao cativeiro.

    E assim Vovô Benedito passou sua vida, sempre com um sorriso nos
lábios, sempre com uma palavra de consolo a seus irmãos negros, sempre
entregando seu corpo para ser açoitado no lugar de um irmão negro que
já não resistia mais o peso da chibata, sempre protegendo uma criança
negra que poderia ser humilhada, maltratada e muitas vezes morta pelas
mãos dos feitores sem piedade.

    Já idoso, Vovô Benedito, sofre uma das suas maiores tristezas, a
perda de sua Mãe de coração, a velha Joaquina, ou a "Velha Chica",
como ele a chamou a vida inteira, por não conseguir  pronunciar o
nome dela, pois nas tentativas o melhor que conseguia pronunciar era
"velha Jucuína", depois de algumas tentativas, veio a desistência, e
como a Velha Joaquina lhe dera o nome de Benedito, ele lhe batiza de
"Velha Chica", como forma de gratidão, ou forma de fugir do nome, que
para ele era tão complicado pronunciar.

    Vovô Benedito desencarnou com a estupenda idade de 120 anos. 120
anos de chibatas, de troncos, de trabalhos forçados, de grandes
humilhações, mas também de 120 anos de carisma, fé, caridade, alegrias
mesmo nos momentos tristes, mesmo nos momentos de saudades, mesmo nos
momentos de dores, tanto do corpo físico quanto da alma.

    Infelizmente desencarnou sem saber o que era a liberdade, pois seu
desencarne foi no ano de 1887, sendo a assinatura da Lei Áurea no ano
seguinte.

    Hoje Vovô Benedito é uma Entidade de Luz, trabalhadora da linda
Umbanda. Um Preto Velho caridoso, amável, mandingueiro, que nos da
toda a atenção necessária, que nos faz ter esperanças, que nos mostra
caminhos, que nos alegra em momentos de desespero, que nos ensina que
a fé em Deus é o caminho.

    E com muita honra e felicidade que eu, Carlos de Ogum, tenho o
prazer de ter essa bondosa e carismática Entidade de Luz em minha coroa para trabalho dentro da linha dos Pretos Velhos, assim como tenho o mesmo prazer de ter Vovô Rei Congo das Almas e Pai Antero da Encruza nessa linha de trabalho, pois com essa corrente desses velhos negros amados fazemos o que mais amamos, usar a Umbanda para espalhar amor e caridade.

Salve todos os Pretos Velhos!

    Adorei as Almas!

    Saravá Vovô Benedito da Calunga Pequena!

    A sua benção e proteção meu Vovô querido!

Conhecendo os Falangeiros de Ogum

    Muito se ouve falar em "Falangeiros" dentro de nossa linda
religião de Umbanda.
Mas pouco se explica sobre o que é um Falangeiro.

    Sendo assim vamos entrar no mundo dos Falangeiros, e como estamos
no mês de Pai Ogum, nosso Orixá guerreiro e protetor, decidi falar um
pouco sobre os Falangeiros desse Orixá tão conhecido e respeitado
dentro das religiões Afro-Brasileiras.

    Falangeiro é aquela Entidade que está somente abaixo do Orixá, ele
comanda as legiões de Entidades e Espíritos que se afinizam na
vibração do Orixá que os governa.

    Esses Falangeiros são divididos da seguinte maneira:

Ogum Megê, Ogum Beira-Mar, Ogum de Ronda ou Naruê, Ogum Matinata,
Ogum Delei ou Delê, Ogum Iara e Ogum Rompe-Mato.

    Eles vem na seguinte vibração de Ogum com outro Orixá:


Ogum Megê: Trabalha em vibração com Omulú, na linha das Almas.
Ogum Beira-Mar: Trabalha em vibração com Iemanjá.
Ogum de Ronda ou Naruê: Trabalha em vibração com Exú.
Ogum Matinata: Trabalha em vibração com Oxalá.
Ogum Dilei ou Delê: Trabalha em vibração com Xangô.
Ogum Iara: Trabalha em vibração com Oxum.
Ogum Rompe-Mato: Trabalha em vibração com Oxossi.

    Abaixo falaremos um pouco de cada um.


                              OGUM MEGÊ




Ogum Megê nos ritos de Umbanda é muito invocado para resolver casos de
feitiçaria e outros trabalhos mais pesados, principalmente os que
envolvem a Calunga Pequena, ou cemitério.

    Ogum Megê anda geralmente nas encruzilhadas, e estradas que dão
acesso ao campo santo, e sua força se une com a de Omulú, o grande
guardião das almas e de sua morada.

    Poderoso guerreiro, sempre está atento para o que se passa dentro
dos cemitérios, sendo importante que; antes de fazermos qualquer
passagem neste local, pedimos licença a ele, e pedimos sua proteção
contra Espíritos perdidos que se encontram ali.

    Ogum Megê, assim como os demais Oguns, é um protetor fiel, e
sempre que por ele chamamos, encontramos pronto atendimento às nossas
súplicas.

    Com sua força e luz, este Ogum ronda os cemitérios, e nada podemos
fazer sem sua devida autorização.

    Era comum os umbandistas mais antigos, levarem para ele, cerveja,
velas, ou outro tipo de oferenda para que ele autorizasse aos exús
daquele lugar, que viessem atender a um chamado sempre que deles
precisassem. Hoje em dia, com novos conhecimentos, entendemos que
muitas dessas coisas não se fazem necessário, pois Ogum Megê é
sublime, caridoso e nos ajuda diante de nossa fé, apenas desejando
respeito e que não usemos o seu nome para levar ódio e maledicências
a terceiros.

    Ogum Megê Usa as cores vermelha e branca, assim como a grande
maioria dos Oguns de Umbanda, fuma cigarro ou charuto e quando
incorporado, bebe de forma moderada a cerveja branca.

    Só frisando que o fumo e a cerveja, fazem parte do ritual de
limpeza de ambientes e médiuns, não é para satisfazer vontades, pois
um Orixá não tem essa necessidade.

    Ao invocarmos algum exú de cemitério para nos ajudar em alguma
situação, o Sr. Ogum Megê, vem imediatamente até as proximidades do
portão e busca saber a que lugar vai aquele exú, também desejando
saber o que vai fazer. E se ele não for devidamente informado, pode
impedir que aquele exú venha trabalhar, e essa é a causa de alguns
trabalhos de cemitério não renderem resultados satisfatórios.

    Ogum Megê Dentro da quimbanda, assim como os demais Oguns, se
encarrega de supervisionar os trabalhos que são realizados, e se por
ventura algo de muito errado for feito, ele imediatamente comunicará
às esferas superiores e se dará assim, o início da cobrança daquele
ato, primeiramente para o exú e posteriormente para a pessoa que
solicitou o trabalho.

    Saravá Ogum Megê!!!


                           OGUM BEIRA-MAR




    Entre todas as qualidades de Ogum, Ogum Beira-Mar, talvez seja o
mais conhecido entre eles, pois muitos trabalham com as Entidades de
Luz dessa falange.

Um dos principais motivos é que todos filhos de Ogum tem uma ligação
direta e muito especial com Iemanjá.

    A entidade que faz a ligação entre Ogum e Iemanjá, é Seu
Beira-Mar.

    Essa entidade toma conta das praias, onde há a arrebentação das
ondas, é ele que encaminha os pedidos feitas a mãe Iemanjá, pois como
nas lendas dizem, "Ogum mora no mar", portanto é lá que seu Ogum
Beira-Mar trabalha.

    Quando estão em terra as Entidades desta linha são sempre eretas,
com uma postura um tanto chamativas, de peito inflado. Podendo dentro
do Candomblé, seja que algum use capas encarnadas, e preferem
armaduras prateadas, diferente de outras entidades que usam dourado.

    Sua cor vibratória é o Vermelho, mas aceitam muito bem o azul
claro, pois é sua cor de atuação.

    Ogum Beira-Mar, comanda muitas falanges como por exemplo: Ogum 7
Ondas, Ogum 7 Mares, Ogum Marinho entre outros.

    No caso de Ogum 7 ondas, que é o responsável em entregar as
oferendas a Iemanjá, ele vem logo após a Ogum Beira-Mar, ou seja, se
oferta algo a Iemanjá, Ogum autoriza a Ogum Beira-mar a receber, e
Ogum Beira-Mar faz a entrega a Ogum 7 Ondas para que esse entregue aos
braços da linda Iemanjá. Caso Ogum não autorize, seus pedidos e sua
oferenda não vão chegar a Iemanjá, e por esse motivo alguns pedidos
feitos a ela não são realizados.

Saravá Ogum Beira-Mar!!!


                     OGUM DE RONDA OU OGUM NARUÊ




    Ogum de Ronda ou Ogum Naruê, chama um tanto a atenção dentro dos
Terreiros de Umbanda por estar ligado com os Exús., portanto Ogum de
Ronda ou Naruê tem dois lados, sendo um lado Ogum e outro lado Exú.

    Isso quer dizer que Ogum de Ronda ou Naruê, trabalha em dois polos
energéticos, ou seja, tanto do lado positivo quanto do negativo.

    Ogum de Ronda ou Naruê, vem quase da mesma vibração de Ogum Megê,
trabalha também nas Calungas Pequenas (cemitérios), e guarda com
firmeza as entradas de Centros e Terreiros Umbandistas.

    E normal na entrada de um Terreiro de Umbanda notarmos a imagem de
Ogum de Ronda dividindo os espaços entre as assistências e consulentes
do espaço cedido aos Médiuns trabalhadores, pois, enquantos os Exus
tomam conta das tronqueiras, Ogum de Ronda protege a entrada do cômodo
onde está havendo as incorporações, desobsessões, descarregos e
atendimentos.

    Também é natural se acompanhar no momento da defumação dos
Terreiros e de Médiuns, assim como todo o ambiente, o pedido dos
responsáveis pela Gira, o acompanhamento de Ogum de Ronda nessa hora.

Saravá Ogum de Ronda ou Ogum Naruê!!!


                            OGUM MATINATA




Ogum Matinata vibra, originalmente na linha de Ogum sem cruzamentos, é
a linha puro do Orixá Guerreiro.

    Ele é defensor dos campos onde são feitas as oferendas para Oxalá,
bem comuns em colinas floridas e montes.

    Ogum Matinata raramente é observado em um trabalho de incorporação
mediúnica, pois são pouquíssimos Médiuns que o tem como guia, pelo
fato de ser uma incorporação um tanto complicada, sendo um Médium com
Ogum Matinata na coroa, esse Médium tem que estar extremamente
desenvolvido para tal.

    As cores de Ogum Matinata são branco e vermelho, predominando mais
o branco.

    Suas oferendas devem ser sempre entregues em campos com muitas
flores. Além de guardar as oferendas de Oxalá, vibra diretamente
com o mesmo.

Saravá Ogum Matinata!!!


                OGUM DE LEI, OGUM DELÊ OU OGUM DILEI




    Esse Orixá é intermediador de Ogum e Xangô, ele chama-se Ogum de
Lei, alguns chamam de Ogum Delê e outros de Ogum Dilei, depende da
região onde se encontra os Terreiros.

    Todo material pesquisado sobre Ogum De Lei, não dá a grandeza
desse Orixá, pois é um tanto escasso, talvez pelo fato de que seja, um
tanto raro de ser visto em rituais de Umbanda.

    Ogum De Lei são os aplicadores da lei de Xangô, pode-se chamar até
de executores das leis divinas.

    Ogum de Lei, no Candomblé, usa armadura dourada e capa encarnada,
e por ser intermediador de Xangô, usa uma balança nas mãos, sempre com
uma mão sobre a espada, em sinal de execução.

    Sua cores cabalísticas são branco, vermelho e amarelo.

    Sua área de atuação é a entrada das pedreiras, pois nas pedras o
intermediário de Ogum para Xangô é, o "Ogum Guarda das Pedreiras". Mas
como disse essas entidades são dificeis de se ver em terra.

    Quando o Orixá Ogum manifesta-se na defesa do reino de Xangô,
encontramos o desdobramento chamado de Ogum de Lei, ou seja,
combinação vibratória do Orixá Ogum com o Orixá Xangô. Em nível de
necessidade nossa de terra (ou terreiro) é quando Ogum atua na
execução de justiça. É o Ogum da ponderação, ou seja, conquista/defesa
através da ponderação, da estratégia, da justiça e da sabedoria.

Saravá Ogum De Lei!!!


                              OGUM IARA



Ogum Iara, que também se pode ser escrito Ogum Yara, é uma falange do Orixá Ogum, bem
conhecida, ele trabalha em vibração com a Orixá Oxum, e também é dito
que seu trabalho vibra junto com Ibeiji, intermediando as crianças da
Umbanda.

    Ogum Iara que além de sua natureza aguerrida ainda carrega o amor
característico de nossa mãe Oxum, e também a doçura das crianças, que
vibram juntamente com Ibeiji, tem como característica a proteção de
modo especial a seus filhos, a sublime demonstração de ensinamentos
além de nos dar caminhos rumo a vitória. Sendo ele um pai austero,
forte e amoroso, assim nos ensina a caminhar nessas estradas, ora
iluminadas e planas, ora escuras e cheias de obstáculos.

    Dentro da Umbanda, Ogum Iara, é muito respeitado, e em um de seus
pontos cantados que diz assim:

"Ogum Iara, quando era menino, em seu cavalo branco ele foi guerrear, ele
guerreou, lá na sua banda e na nossa banda ele venceu demanda."

    Podemos observar nessa entoação, toda a bravura desse guerreiro,
sua forma destemida de encarar as demandas, sejam elas no plano
espiritual ou material.

A cor vibratória de Ogum Iara é o azul escuro. Ele trabalha nas
cachoeiras e em alguns jardins, tem como função de ser o receptor das
oferendas entregues a Oxum e também a Ibeiji.

Saravá Ogum Iara!!!

                           OGUM ROMPE-MATO



    Senhor Ogum Rompe-Mato é Senhor e comandante dos Caboclos de Ogum,
Seu Rompe-Mato também é famoso. suas falanges baixam em muitos
terreiros.

    A maioria dos falangeiros de Ogum, se comportam de forma retida,
costumam ficar parados num local, como se fosse um guarda de um
palácio, mas as Entidades de Luz da falange de Seu Rompe-Mato é
diferente, quase todos dançam e rodam o terreiro inteiro, alguns até
bradam. Talvez pela afinidade com a linha dos caboclos.

    Ele é intermediário entre o Orixá Ogum e Oxossi, por isso também
usa como cor vibratório além do branco e vermelho, o verde das matas.

    Seu campo de atuação é a entrada das matas, onde Oxossi governa.
Ogum Rompe-Mato guarda essa entrada, ele está sempre na entrada de uma
trilha, guardando os espíritos que lá moram.

    Não devemos confundir o Ogum Rompe-Mato com o Caboclo Rompe-Mato,
um é o intermediador de Ogum e Oxossi, já o Caboclo, é uma Entidade de
Luz que trabalha na linha de Ogum, e faz sua entrega pra Oxossi, um é
falangeiro, outro é um Guia.

    Todos os pedidos e  oferendas a Pai Oxossi, entregues nas entradas das matas e
florestas, passam por Seu Ogum Rompe-Mato, que autoriza ao Caboclo
Rompe-Mato a levá-las ao próprio Oxossi, para ai sim serem atendidos
os pedidos, e como os outros falangeiros de Ogum, se esse pedido não
tiver cabimento dentro da lei Umbandista, Seu Ogum Rompe-Mato não
autoriza e esse pedido sem nexo nunca vai ser realizado.

Saravá Ogum Rompe-Mato!!!

    Esses são os falangeiros desse maravilhoso e protetor Orixá
guerreiro, e esse é um texto resumido, pois a beleza desses Orixás é
tão grandiosa que realmente não daria para expressar em tão poucas
linhas.

Patacori Ogum!!!

Carlos de Ogum